A luta dentro e fora do tatame

João Vitor Viana
Repórter JNC

O Brasil é um celeiro de talentos. Com mais de 200 milhões de habitantes, é certo que havendo uma política pública séria, incentivos da iniciativa privada e outros benefícios, as chances de mais pessoas aparecerem no cenário esportivo e, ainda, milhões de novas outras verem no esporte uma possibilidade de vida, não se envolvendo em crimes, crescem de forma exponencial. No entanto, ao que parece, nem mesmo depois de haver dois eventos mundiais no país (Copa do Mundo, em 2014, e Olimpíadas, em 2016), o esporte não se tornou uma preocupação nem
do poder público, nem dos empresários.
Nossa conversa da semana é com um lutador, literalmente. Aos 34 anos, Jondson Medeiros Pereira vive a expectativa de participar do seu primeiro torneio internacional, no México. Integrante da Seleção Brasileira, o atleta corre contra o tempo e atrás de patrocínio, a fim de realizar o sonho de disputar a competição e de buscar uma posição de destaque no torneio.
JNCHá quanto tempo pratica Muay Thai e como foi parar nesse esporte? Como foi o seu início?
JM – Pratico o esporte há nove anos. Antes eu era do Jiu-Jitsu, mas acabei indo para o esporte depois de conhecer o mestre Ricardo Viana e a equipe que estou hoje, a FT-BH. Vim de família humilde. Nunca tive condições de arcar com isso, financeiramente. Até começar a treinar, eu limpava a academia e, depois, liberavam de graça para eu treinar. Batalhei bastante para construir o que tenho hoje e conquistei muitas coisas. E temos crescido. Com batalha eu cheguei a um patamar muito bom. Mas essa luta, na minha visão, poderia ser melhor se tivesse essa parceria com a iniciativa privada para que consigamos resultados cada vez melhores, dando a oportunidade a mais pessoas de também surgirem e serem campeões não só no esporte, como na vida.
JNCVivemos em um país onde o empresário vê com desconfiança algo que fuja dos “tradicionais futebol e vôlei”. Como é essa luta diária pelo reconhecimento?
JM – A dificuldade para conseguir um patrocínio é muito grande. Já disputei vários eventos em cidades vizinhas a Belo Horizonte e tenho corrido atrás para a disputa desse primeiro torneio internacional que tenho pela frente daqui uns meses.
JNC – Na sua visão, há um olhar de desconfiança com o esporte especializado?
JM – As pessoas parecem não confiar no nosso trabalho. No Brasil, a maioria dos apoios vai para outros esportes, em especial para o futebol, que é tratado, até pela mídia, como nossa maior arte. No entanto, o Brasil é um país rico em esporte, em talentos, em atletas capazes de honrar o nome do esporte, do país e do patrocinador,seja em que território estiver.
JNC – O que, como competidor, você acredita que deve mudar para que o apoio ao esporte especializado comece a crescer?
JM – Temos que trabalhar muito para mudar isso. O esporte que pratico é igual a qualquer outro, vivo disso e trabalho diariamente para dar o meu melhor nos torneios. E até por isso esse incentivo é mais do que necessário.
Se no futebol, os atletas têm toda uma programação, uma dieta, treinos organizados, deslocamentos, nós também temos.
JNC – O Muay Thai, para você, não é apenas um esporte…
JM – Com certeza é bem mais que isso. Seria muito interessante se essa parceria começasse a ser mais estreita. Trabalhamos muito, lidamos com várias pessoas, ensinamos novos atletas. Nós somos espelhos de muitos futuros atletas e nossa preocupação vai muito além do esporte, já que tratamos isso como uma solução social para muitos jovens. Hoje, no centro de treinamento que administro há 88 alunos. Viver o esporte diariamente é algo muito maior que o simples fato de competir.

recommend to friends
  • gplus
  • pinterest