Autismo: Inclusão vai muito além de dar acesso à educação e saúde

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Karine Borges
Repórter

Entrevista: Psicóloga Dra. Yara Machado Pereira Cassiano

Em 2008, o dia 02 de abril foi instituído pela ONU como Dia Mundial de Conscientização do Autismo.
A ideia é que as pessoas compreendam a importância de se solidarizar pela causa, porque autismo não
afeta apenas a criança e sua família, mas toda a sociedade. Afinal, a inclusão vai muito além de dar acesso à educação e saúde: é preciso fazer com que a criança se sinta à vontade e verdadeiramente integrada às atividades de lazer e sociais.
A data levanta a discussão sobre o que podemos fazer, como sociedade, para trazer independência, segurança e qualidade de vida para as crianças autistas e suas famílias.
E por isso o Grupo Amais Contagem surgiu a partir da necessidade de conscientizar as pessoas sobre o que é o autismo, e sobre como tratar e respeitar uma pessoa autista.
O Autismo está aumentando em número de diagnósticos e o tratamento adequado não acompanha
o crescimento desses diagnósticos e o preconceito é uma das grandes barreiras que ainda é enfrentada, o
desconhecido causa estranheza, por isso o Amais procura levar a todos o conhecimento sobre o autismo, organizando eventos, palestras e cursos, sempre com profissionais parceiros e capacitados.
O grupo já conseguiu que três leis municipais fossem aprovadas no município: a Lei de nº 4508 que constitui o dia 02 de abril como dia municipal da conscientização do autismo, a Lei nº 4552 que reconhece o autista como pessoa com deficiência, assim a pessoa autista passa ter os mesmos direitos das pessoas com deficiência do município de Contagem, e a Lei Nº 4.995, de 10 de maio de 2019, Institui o Dia 18 de junho o dia Municipal do Orgulho Autista, em Contagem.

Entrevista: Psicóloga Dra. Yara Machado Pereira Cassiano

JNC: Você poderia caracterizar o que se entende por autismo?

O Transtorno do Espectro Autista é caracterizado por um conjunto de três principais prejuízos para o
desenvolvimento da criança: prejuízo na comunicação, prejuízo na interação social e presença de movimentos repetitivos e estereotipados, segundo o DSM – 5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).

JNC: O que espera do futuro para crianças com autismo?

Espera-se que as crianças com TEA possam crescer e se desenvolver de acordo com suas potencialidades. Toda criança aprende e se desenvolve dentro das suas particularidades com estímulo correto e constante. Que as escolas se capacitem e preparem cada vez mais seus profissionais para recebê-las, bem como o mercado de trabalho.

JNC: E os jovens e adultos?

Jovens e adultos também, cada criança, jovem ou adulto tem demandas diferentes, uns precisam mais de apoio e suporte, outros menos e outros quase nenhum suporte, mas todos tem possibilidades a serem
exploradas, desenvolvidas e aprendidas. O que precisamos saber é que sim, com auxílio, estímulo,
terapias todos podem se beneficiar e caminhar, lembrando sempre que no TEA cada caso é único e não
pode ser tratado da mesma maneira.

O que acha da lei Romeo Mion? E de outras?

Existem leis para compra de meios de transporte, com isenção de taxas e de rodízio municipal de veículos, para requisição de isenção da tarifa para uso do transporte público, lei que prevê descontos na compra de passagens aéreas tanto para o portador quanto para o acompanhante. Temos a lei Berenice Piana que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos das Pessoas com TEA. Essas leis são importantes para fazer valer os direitos das pessoas com TEA de todas as idades, que por muito tempo ficaram sem legislação específica.
Com relação a Lei Romeo Mion, acredito que tenha sido um passo importante, pois o TEA é um transtorno que não tem características visíveis aos olhos de todas as pessoas e em determinadas situações ela facilitará a interação destas com a sociedade.

JNC: O que você pensa que falta ao nosso sistema educacional para a inclusão de crianças com autismo?

De uma forma bem ampla o sistema educacional precisa conhecer o que é o TEA, profissionais precisam ter subsídios para conseguir trabalhar com as crianças, capacitação para conseguir compreender como trabalhar com essas crianças em classe. É um trabalho para todos os setores da educação, precisa ser interdisciplinar… Ainda temos muito o que caminhar a esse respeito.

JNC: O que ainda falta para a sociedade incluir pessoas com autismo?

Conhecimento, respeito e empatia.

JNC: Por que o diagnóstico precoce é tão relevante?

Porque já sabemos que quanto mais cedo tivermos conhecimento, mais cedo podemos agir de forma
assertiva com a finalidade de minimizar esses atrasos.
Sabemos que existe uma janela de oportunidades que compreende dos 0 aos 6 anos. Quanto mais cedo
maior a capacidade das redes neurais da criança fazerem novas conexões.
É um período de grandes possibilidades de aprendizado pois as sinapses estão
a todo vapor, é a famosa plasticidade neuronal favorecendo o aprendizado e a apreensão do conhecimento nesse período.

JNC: Qual o prognóstico de uma criança autista? Nos últimos anos, quais as mudanças
ocorridas no tratamento?

Não podemos perder de vista que cada criança é única, com potencialidades e dificuldades diferentes,
porém hoje com toda mudança e todos os estudos envolvendo o TEA avançando o prognóstico mudou muito, temos crianças que alcançam o desenvolvimento esperado para a idade delas ou que chegam
bem próximo a ele, com as intervenções necessárias. Lembrando que isso não significa cura para o TEA.
Os estudos em Análise do Comportamento Aplicada têm avançado muito e demonstrado por meio de
pesquisas robustas e de qualidade o quanto a vida da criança pode mudar com base nesse modelo de
intervenção.
O tratamento interdisciplinar é fundamental, com equipe formada por diversos profissionais como
fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, médicos… e outros, de acordo com a demanda da criança.

JNC: Quais as principais orientações para familiares e amigos que convivem com uma criança autista?

Busquem conhecimento sobre o que é o TEA.
Busquem profissionais especializados. Pesquisem a respeito, se inteirem daquilo que vocês enquanto família podem fazer para dar suporte para que seus filhos se desenvolvam da melhor maneiro possível. E cuidado com acessos a locais na web e a profissionais que prometem cura sem trabalho firme e constante, fórmulas mágicas e fáceis.

JNC: Quais as principais características do autismo?

As principais características são os atrasos na comunicação e interação social e movimentos estereotipados.

JNC O que isso quer dizer? 

São crianças que não atingem os marcos do desenvolvimento, por exemplo, na fala, no andar, na interação com as pessoas que estão a sua volta, não se interessam pelo outro com a frequência comum para idade delas, fogem do contato social, tem baixo ou nenhum contato visual, apresentam comportamentos repetidos – o famoso balançar as mãos ou o tronco são muito comuns – mas existem muitos outros, comportamentos restritos e pouco funcionais no dia-a-dia. Outros exemplos são, andar na ponta dos pés, pouca resposta ou respostas extremas a barulhos externos, sensibilidades de visão, paladar, tato, olfato, vestibulares, proprioceptivas entre outras. As crianças não apresentam todas
essas características, cada uma tem suas particularidades, como falado anteriormente.

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