Estudo UFMG: uso de fluoxetina gera melhorias em perda de memória causada por depressão

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Publicada em artigo da Translational Psychiatry, pesquisa demonstra que efeito pró-neurogênico de antidepressivo atua no bulbo olfativo; experimentos apontam também diferenças entre déficit de memória social em fêmeas e machos diante de situações de isolamento social

A solidão prolongada, ainda que adotada de maneira consciente e proposital, pode gerar impactos negativos tanto na saúde física quanto no estado mental dos seres humanos. Depressões provocadas pelo isolamento chegam até mesmo a causar quadros de perda de memória. Em estudo realizado para aumentar a compreensão desse mecanismo, que se diferencia de outras situações envolvendo déficits de memória, pesquisadores da UFMG descobriram que a fluoxetina melhora não apenas o quadro específico, como também a própria depressão de animais isolados socialmente, através do aumento da neurogênese no bulbo olfatório. Além disso, foram detectadas diferenças na perda de memória entre fêmeas e machos.

Lembrança prejudicada, memória exacerbada por conteúdo negativo ou enfraquecimento das memórias positivas são variantes bem conhecidas no meio especializado como possibilidades de manifestação da depressão associada à ruptura da memória episódica. No entanto, os mecanismos de perturbação da memória na depressão ainda são pouco compreendidos, gerando a abertura inicial para a pesquisa.

“A depressão é uma doença de etiologia heterogênea e quanto mais modelos animais existirem, melhor compreenderemos as particularidades dos diferentes quadros e sintomas de depressão, o que favorece que tratamentos específicos sejam desenvolvidos”, salienta Grace Schenatto Pereira Moraes, uma das pesquisadoras responsáveis pelo projeto e professora do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.

Os resultados do estudo foram apresentados em artigo publicado na Translational Psychiatry, revista médica vinculada à Nature, na segunda-feira, 27 de janeiro. De acordo com Grace Pereira, a publicação em uma revista de alto impacto só foi possível graças ao esforço conjunto de uma equipe multidisciplinar, composta por membros da comunidade acadêmica. “Todos os experimentos foram feitos na nossa UFMG, enfrentando dificuldades financeiras e de infraestrutura”, ressalta. “Investir em ciência básica é imperativo para o crescimento e desenvolvimento de uma nação”.

Fluoxetina e efeitos no bulbo olfatório
Apesar de comumente associada à experiência humana, a solidão objetiva pode ser induzida em animais de laboratório, privando-os do contato físico com indivíduos específicos. Roedores, por exemplo, tendem a desenvolver sofrimento emocional e comprometimento cognitivo. Para o estudo, uma criação de camundongos foi colocada em isolamento social durante sete dias, distribuídos em ambientes com condições diversas. Foram utilizados 164 espécimes adultos (8-12 semanas de idade) e 36 juvenis (21-35 dias de idade), que passaram por uma série de análises comportamentais, morfológicas e neuroquímicas.

Os resultados mostraram que camundongos em isolamento social exibem um estado depressivo que pode ser evitado quando estão inseridos em um ambiente enriquecido, ou seja, que passou pela adição de fitas, pedaços de plástico, rolos de papelão e brinquedos na gaiola. Da mesma forma, o quadro apresenta melhoras com o uso dos antidepressivos fluoxetina e desipramina. O primeiro, em especial, foi capaz de neutralizar o efeito deletério da solidão na memória social.

“O mecanismo pelo qual atuam a fluoxetina e a desipramina, dois antidepressivos amplamente usados na clínica, não é o mesmo. Então, para alguns casos de depressão onde ocorra déficit de memória, seria mais interessante usar fluoxetina e não desipramina, esclarece Grace Pereira. “Além disso, nossos achados são extremamente importantes, pois reforçam a hipótese de que a formação de novos neurônios é um mecanismo envolvido nos efeitos da fluoxetina”.

Para chegar à segunda conclusão citada pela pesquisadora, foram analisadas a proliferação celular, neurogênese e astrogênese após o tratamento com antidepressivos. As análises indicam que a fluoxetina age via mecanismo dependente de neurogênese para melhorar a memória dos animais. E o bulbo olfativo, área olfatória primária do cérebro, apareceu como nicho neurogênico com maior aumento na neurogênese após o tratamento com fluoxetina.

“Esperávamos que o efeito da fluoxetina fosse mais expressivo no hipocampo, uma região do cérebro importante para memória. Entretanto, o bulbo olfatório foi a área mais sensível. Isso foi muito interessante porque para a ecologia do roedor, o bulbo olfatório é fundamental para sua relação com o meio que o cerca e com outros camundongos”, explica a professora da UFMG. Segunda a especialista, o olfato é a principal modalidade sensorial em camundongos. Assim, os resultados sugerem que áreas do cérebro que processam estímulos sociais são as mais sensíveis à fluoxetina e seus efeitos sobre a neurogênese.

Conservação da memória em fêmeas
Evidências anteriores aos testes sugeriam que a solidão afeta homens e mulheres de forma diferenciada. Portanto, antes de avaliar o mecanismo do déficit de memória social foram realizados testes entre camundongos machos e fêmeas. De fato, quando tomados em conjunto os resultados mostraram que uma semana de isolamento não afetou a memória social em fêmeas, apesar de haver induzido o comportamento depressivo conforme o esperado.

“Foi muito interessante! Em humanos, as mulheres são particularmente mais afetadas pela depressão, ou seja, por alguma razão nós mulheres somos mais acometidas por quadros depressivos. Nos animais, esperávamos que o isolamento social aumentasse comportamentos depressivos, mas não esperávamos que a memória fosse resistente ao isolamento social”, destaca Pereira.

Para cumprir o objetivo inicial de investigar o mecanismo neural comum entre déficit de memória e comportamento depressivo no contexto de isolamento, os experimentos seguintes foram limitados aos machos, mas os resultados sobre a diferença de gênero já inspiram reflexões para novos estudos. Segundo a especialista, na realidade a preservação da memória de fêmeas em alguns modelos de indução de déficit não é tão incomum, enquanto o mesmo modelo prejudica a memória em machos, e com base em pesquisas anteriores do próprio grupo da UFMG é possível desdobrar essa linha de análise.

“Nós mesmos temos artigos publicados mostrando que um prejuízo no sistema colinérgico, que produz o neurotransmissor acetilcolina (importante para várias alterações plásticas inerentes ao processo e armazenamento de memórias), prejudicou a memória de machos, mas não de fêmeas. Além disso, vimos que esse tipo de proteção nas fêmeas era dependente dos hormônios ovariano. Então, um possível desdobramento deste resultado seria verificar a participação do estradiol e da progesterona na resistência que a memória das fêmeas apresentaram frente ao isolamento social”, reflete Grace Pereira.

Artigo: Pro-neurogenic effect of fluoxetine in the olfactory bulb is concomitant to improvements in social memory and depressive-like behavior of socially isolated mice
Autores: Leonardo O. Guarnieri, Ana Raquel Pereira-Caixeta, Daniel C. Medeiros, Nayara S. S. Aquino, Raphael E. Szawka, Eduardo M. A. M. Mendes, Márcio F. D. Moraes e Grace S. Pereira
Data de publicação: 27 de janeiro
Revista: Translational Psychiatry

Foto; Wikipedia

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