Não consigo ser feliz. E agora?

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Por Samantha Alves Pereira de Souza*

Paulo teve uma infância que ele classificou como “pobre e difícil”. Seus pais, humildes em comportamento e escolaridade, não reclamavam da vida que tinham. Mas Paulo se sentia constantemente incomodado com a forma como as outras pessoas o tratavam. Davam a ele tarefas que ele considerava humilhantes como: engraxar sapatos e cuidar de cachorros. Pequenas tarefas em troca de algumas moedas que ajudavam a comprar o fubá do almoço da família.
Paulo não queria ser como seus pais. Queria mais da vida, mais dos outros. Queria o respeito de todos. A única forma de ser respeitado era tendo uma profissão considerada digna. Ele escolheu ser advogado. Sim, seu objetivo era cursar direito. Com muito sacrifício, formou-se na faculdade e teve sucesso na
prova da Ordem dos Advogados do Brasil. Era um deles agora.
Como recém-formado, ainda não poderia ter um escritório no bairro chique da cidade, mas tinha que trabalhar. Então, começou a trabalhar numa sala simples, num bairro simples, para gente simples. Tornou-se o advogado dos pobres: cuidava de todo tipo de causa. De pequenos contratos a grandes
prisões. Mas ele queria mais da vida, mais da sua profissão.
Casou-se com uma bela e rica moça que o possibilitou a ter um escritório chique e atender gente chique. Estudou mais e chegou ao doutorado da área jurídica: era um doutor. Agora já poderia ser chamado de Dr. Paulo. Soava bem, respeitoso. Em seu casamento, tiveram um filho. Sua esposa o cobrava ter mais postura de um homem forte, altivo. Mas Paulo não era assim. Sentia-se sempre pressionado a ter mais, a ser mais: ele não era bom o bastante.
Com a passagem de poucos anos, Paulo enterrou seus pais e até sua jovem esposa.
Numa manhã, decidiu que não ia para o escritório. Ia passear com o filho, era uma manhã linda. Antes de sair de casa chamou o filho. Ele veio correndo com sua energia de quatro anos de idade. Paulo se abaixou e olhou nos olhos do filho. A criança segurou o rosto dele com suas mãos gordinhas e perguntou:
vamos, papai? Naquele momento, Paulo não sentiu a solidão e a infelicidade que foram suas companheiras durante toda a sua vida. Sentiu uma felicidade que nunca havia encontrado até então, mesmo tendo a perseguido tanto.
Sentiu paz. Se ele soubesse que a felicidade estava ali o tempo todo, ele a teria buscado na sua profissão, no seu casamento vazio ou na sua posição social? Talvez. Nunca saberemos. Mas ele conheceu a felicidade e isso era muito bom. Foi pensando nisso que ele pegou o filho pela mão e saíram juntos
para desfrutar daquela linda manhã.
Você sente que não tem conseguido ser feliz? Já observou onde ter procurado essa felicidade?
Escrevi essa história inspirada no livro “Olhai os lírios do campo” de Érico Veríssimo. Sou psicóloga e amo reflexões sobre a vida, sentimentos e relacionamentos. O propósito do meu trabalho é contribuir para que as pessoas encontrem sentido em suas vidas apesar das dores emocionais.

*Psicóloga Clínica e Organizacional
samantha.psi@yahoo.com

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