Pesquisadora analisa relação entre torcedoras e torcidas de futebol

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Cerca de 70% das mulheres brasileiras, o que equivale a 67,6 milhões de pessoas, torcem por um time de futebol, segundo pesquisa da empresa de consultoria esportiva Pluri. Nesse ambiente reconhecidamente machista, como são as relações estabelecidas pelas torcedoras com as torcidas dentro e fora das arquibancadas? Foi esse o tema investigado pela doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens (Posling) do CEFET-MG Anna Gabriela Rodrigues Cardoso em sua dissertação, defendida no mesmo programa.

Para a análise, a pesquisadora usou os depoimentos de participantes do 1º Encontro de Mulheres de Arquibancada (2017), realizado no Museu do Futebol do Estádio do Pacaembu (SP), que contou com 300 torcedoras. “Nos depoimentos, identifiquei três principais eixos: o de pertencimento, o de crítica e o de denúncia. Nos dois últimos, as maiores queixas foram sobre o machismo, que muitas vezes ‘proíbe’ ações das torcedoras, como participar de caravanas. Outra queixa muito forte está relacionada às camisas de time, já que muitos clubes não as fazem em tamanhos e modelos femininos”. Anna explica que a questão da roupa foi algo muito apontado pelas torcedoras, já que acreditam que, “assim como lugar de mulher é onde ela quiser, a vestimenta, principalmente o uso de shorts na arquibancada, não é motivo para assédio, o que não temos como discordar, não é mesmo?”.

O evento foi uma maneira de abrir espaço para as discussões de enfrentamento dos problemas e violências sofridos pelas mulheres nesses espaços. Algumas delas, por exemplo, propuseram a obrigatoriedade de uma Delegacia da Mulher nos estádios; outras, campanhas contra o assédio e o machismo nas arquibancadas. “O machismo está, por vezes, tão naturalizado na sociedade que é repetido pelas mulheres que estavam no encontro em uma tentativa de mudar essa situação. O que posso perceber é que há uma forte busca pela reconstrução desse espaço para que isso não precise ser mais a pauta principal, por exemplo, quando há um jogo da seleção de futebol feminino”. Anna Gabriela lembra que tivemos, por 40 anos, uma lei que proibia o futebol de mulheres, mas que elas não aceitaram a imposição e continuaram jogando. Mesmo assim, essa condição interferiu na evolução do esporte como um todo.

“Concluímos que, mesmo em um país denominado ‘do futebol’, isso não quer dizer que todos os grupos sociais estão inclusos nele. Por isso, muitas das vezes, vemos situações de preconceitos fortemente ligadas ao esporte, como os casos de machismo contra jornalistas e torcedoras em jogos da Copa do Mundo, e as denúncias de racismo vindas de jogadores, além dos casos de homofobia. Entendemos que existem imaginários nos quais o poder de autorizar ou não algo dentro do futebol está ‘nas mãos’ do homem hétero branco, pode ser nas arquibancadas, em campo, na arbitragem, no jornalismo ou em qualquer outro espaço discursivo”. A pesquisadora percebeu que, no caso das torcedoras, o simples fato de estarem em espaços reconhecidos socialmente como “de homem” incomoda. Entretanto, grupos buscam mudanças nesse cenário, como foi o caso das torcedoras que se reuniram no Encontro de Mulheres de Arquibancada.

Paixão

A paixão pelo esporte sempre acompanhou a pesquisadora, principalmente pelo fato de o pai e o avô materno dela terem jogado, treinado times e até apitado partidas de futebol. “Na adolescência, acompanhava os jogos. Lembro que eu tinha uma tabela do Campeonato Brasileiro em que escrevia a lápis a pontuação dos times, atualizando a cada rodada”, recorda.

O tempo passou e depois de muitas idas aos estádios de BH, Anna Gabriela deu início às pesquisas na graduação (UFLA) sobre torcedoras e torcidas, com a orientação da professora Márcia Amorim. Do trabalho de conclusão de curso, ela ingressou no mestrado do CEFET-MG sob orientação da professora Lilian Aarão e, agora, cursa o doutorado na Instituição sendo orientada pelo professor Claudio Humberto Lessa,  dando continuidade às pesquisas sobre a temática.

Saiba mais
Acesse a dissertação “Imagens discursivas de mulheres torcedoras dentro e fora das arquibancadas” da doutoranda Anna Gabriela Rodrigues Cardoso no link https://www.cefetmg.br/wp-content/uploads/2020/11/dissertacao-Anna-Gabriela-Rodrigues-Cardoso.pdf .

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