Isolamento e envelhecimento são desafios na Síndrome de Down
Campanha “Xô Solidão” repercute em audiência que abordou a importância da inclusão e alertou para cuidados demandados na longevidade
Além de relações sociais pautadas em informação e convivência, cuidar do envelhecimento é caminho para vencer a solidão das pessoas com Síndrome de Down. Assim como a população em geral, elas também estão vivendo mais.
O alerta, trazido pela assistente social Viviane Pinheiro dos Santos, foi um dos destaques de audiência pública realizada nesta terça-feira (17/3/26), por ocasião do Dia Internacional da Síndrome de Down, celebrado em 21 de março.
Este ano, a data tem como tema “Amizade, acolhimento e inclusão. Xô, solidão!”, debatido na Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a pedido do deputado Grego da Fundação (Mobiliza).
Viviane integra a diretoria do Centro de Desenvolvimento Down do Planalto. Segundo ela, até a idade escolar, aqueles com a síndrome ainda encontram apoio. Mas, acima dos 18 e até os 60 anos, existe uma lacuna de solidão para as famílias. Nessa faixa etária as áreas de educação e saúde encerram boa parte dos acompanhamentos, explicou ela.
“As instituições tentam dar o suporte. Mas a maior parte dos nossos assistidos no centro está com 40, 50 ou 60 anos, e junto também surgem as comorbidades. E 80% do meu público não tem mais os pais. Vive com irmãos, que nem sempre abraçam a causa. Isso quando têm irmãos”, expôs Viviane.
Na ausência de pais e outros familiares, esse gargalo ainda gera problemas nos casos que demandam a curatela, em que a justiça nomeia um curador, também pontuou ela.
Isolamento social
O defensor público Luis Renato Braga Arêas Pinheiro endossou a realidade enfrentada por aqueles maiores de 18 anos e suas famílias, reivindicando maior apoio às Apaes, as Associações de Amigos e Pais dos Excepcionais, e à implantação de centros-dia e de centros de convivência oferecendo atividades culturais, espotivas e de lazer. “A falta desses centros é um problelma estrutural no País todo”, dimensionou ele.
Maior apoio da sociedade e governos às instituições de acolhimento também foi cobrado pela representante de familiares na audiência, Heloísa Rogéria Oliveira de Abreu.
Segundo ela, sua filha é muito feliz quando está na Apae que frequenta. “Mesmo assim sinto que a solidão tem tomado conta da vida adulta dela. Nós temos que acabar com a solidão que acompanha os nossos filhos e também com a solidão sentida pelas famílias”, afirmou.
Para Gláucia Carvalho, o princípio da dignidade ainda precisa pautar a prática, para que haja o reconhecimento das capacidades das pessoas com deficiência Foto: Guilherme Bergamini
Esse sentimento das famílias espelha o isolamento social, um problema que ainda permanece invisível, mas reforçado por barreiras ainda presentes em atitudes e no acesso a serviços e a oportunidades reais de inclusão social, conforme avaliou a assiste social Gláucia Carvalho, representante da Apae.
Segundo ela, apesar de avanços na legislação, o princípio da dignidade ainda precisa pautar a prática, para que haja o reconhecimento das capacidades, dos talentos e dos sonhos das pessoas com deficiência, além do direito delas à participação plena na vida
Familiares e especialistas revelam desamparo e cobram políticas como centros de convivência para adultos e idosos com Síndrome de Down
Mensagem de inclusão
Presidente do Instituto Mano Down, Leonardo Gontijo exibiu na audiência um clipe da música “Xô Solidão”, produzida pelo instituto com a participação de Dudu do Cavaco, maestro Daniel Viana, Henrique Dias e Coral Voz, que celebra a superação da solidão por meio da música e do amor.
Leonardo lembrou que o instituto por ele fundado surgiu justamente da solidão do irmão, Eduardo, o Dudu do Cavaco, que chegou a ser rejeitado por muitas escolas e hoje é talento reconhecido na música. O instituto, segundo ele, atende hoje 1.400 famílias, e caminha para duas mil.
Psicóloga da instituição, Marina Fontana Martins acrescentou que o trabalho musical foi pautado na escolha das próprias pessoas atendidas na instituição.
“Muitas estão no mercado de trabalho, mas esse sentimento de solidão ainda continua. Não é só colocar no trabalho, é ter relações sociais e acolhimento”, reiterou a psicóloga.
Relações essas que Rodrigo, o Digão, colaborador do restaurante Gennaro, em Belo Horizonte, demonstrou ter no seu ambiente. Ele expôs ter sido bem acolhido e preparado pela equipe do estabelecimento para receber bem os clientes, realizando um sonho.
Governo expõe ações
Representantes do Governo do Estado expuseram ações relacionadas ao debate. Suéllen Cristina Coelho, da Secretaria de Estado de Educação (SEE), citou a oferta de atendimentos especializados e a ampliação e revitalização das formações oferecidas nas salas de recursos para atendimento educacional especializado.
Segundo ela, é preciso sobretudo desenvolver habilidades socioemocionais dos estudantes para a convivência respeitosa. “É um desafio, pois são 3.440 escolas estaduais em Minas”, contrapôs.
Laura Ribeiro de Barros, da Secretaria de Estado de Saúde (SES), disse que Minas Gerais tem 156 centros de reabilitação intelectual financiados pelo Estado, a maioria das Apaes, com investimentos de R$ 21 milhões em 2024 e acréscimo de 7 milhões em 2025.
Em 2023, foi criada uma coordenação para integralidade do cuidado em saúde da pessoa com deficiência e da pessoa idosa, totalizando a oferta de 190 serviços, aí incluídos os centros, acrescentou.
O representante da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), Carlos Alberto dos Santos Junior, anunciou que serão inaugurados este ano 16 parques girassol, espaços multisensoriais para inclusão, interação e lazer de neurodivergentes.
Compromisso é diário, diz deputado
“Esse debate não é um compromisso de um único dia, é uma caminhada contínua, com muito diálogo e luta por direitos para as pessoas com Síndrome de Down. A inclusão não pode ser tratada como favor, e sim como direito.”

Dep. Grego da Fundação
O deputado citou a presença na audiência do filho de 17 anos, Dimitrios. “Onde ele chega só tem alegria. A quebra do preconceito deve começar na própria família, para o pertencimento verdadeiro”, registrou o deputado.
O deputado Antonio Carlos Arantes (PL) relatou ter convivido com um tio só três anos mais velho. “Éramos um grude, e aprendi a conhecer a Síndrome de Down com ele”, afirmou ao defender políticas para proteção às famílias e seus filhos.
Fonte: Isolamento e envelhecimento são desafios na Síndrome de Down – Assembleia Legislativa de Minas Gerais Foto em destaque: Clipe da música “Xô, solidão!” exibido em reunião trouxe mensagem positiva contra isolamento social Foto: Guilherme Bergamini

