Filme produzido por Contagenses recebe prêmio na Mostra de Tiradentes
Inspirado em vivências no bairro Nacional, documentário reafirma a força do cinema independente produzido na cidade
Realizado a partir de experiências vividas no bairro Nacional, o filme “Para os Guardados”, dirigido por Desali e Rafael Rocha, foi premiado na Mostra Aurora, realizada de forma paralela, durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, um dos principais espaços de difusão do cinema brasileiro contemporâneo.
Com 60 minutos de duração, “Para os Guardados” propõe um olhar sensível sobre as prisões em massa, a ausência do Estado nas periferias e as redes de apoio que sustentam a sobrevivência cotidiana diante da violência institucional. O filme trata o cárcere não como exceção, mas como continuidade de uma vida periférica já marcada pela exclusão, abordando temas como amizade, cuidado, memória, afeto e imaginação como práticas políticas de resistência.



“Para os Guardados” discute temas como amizade, cuidado, memória, afeto e imaginação ambientados no bairro Nacional – Fotos: divulgação
A obra acompanha a trajetória de Fael, um jovem que se dedica à montagem e entrega de kits de apoio a pessoas privadas de liberdade e a seus familiares. Cartas, áudios, encontros e pequenos gestos constroem uma narrativa íntima e coletiva, revelando vínculos que o sistema prisional tenta romper, mas que se mantêm vivos no cotidiano.
Fotos: Desali
De acordo com os diretores Desali e Rafael Rocha, a ideia do filme surgiu de uma prática concreta já presente na vida dos realizadores: a organização e distribuição desses kits na região. Inicialmente pensado como um registro documental, o projeto ganhou outra dimensão à medida que os encontros e relatos revelavam uma urgência maior. O que era acompanhamento tornou-se, segundo os diretores, uma necessidade ética e política de narrar aquela realidade.
Moradores do bairro Nacional, os diretores possuem formação em Artes Plásticas pela Escola Guignard (Uemg) e já acumulam trajetória relevante no cinema autoral. Juntos, assinam também o curta “Estudo para uma pintura: o lavrador de café”, que circulou por festivais nacionais e internacionais e recebeu o Prêmio Humberto Mauro de Curta Invenção.
Para a coordenadora e curadora do Cineclube Contagem, Mônica Alves, que também participou da mostra, o evento refletiu a potencialidade do cinema brasileiro. “O Festival foi lindo e arrebatador. Encontrei filmes potentes que revelaram múltiplos territórios, vozes e estéticas, reafirmando a força do cinema brasileiro independente. Saí tocada por narrativas que escutam as pessoas e seus conflitos e por encontros que reafirmam o cinema como gesto coletivo. Volto ao Cineclube Contagem com vontade renovada, levando uma curadoria viva e necessária. A Mostra Tiradentes fortaleceu em mim o desejo de seguir fazendo do Cineclube um espaço de afeto e transformação”, contou animada.
Reconhecimento
Para Desali, receber o prêmio em Tiradentes tem um significado muito forte, especialmente por ser um espaço historicamente atento ao cinema independente e às experiências fora do eixo Rio-São Paulo. “Para nós, é um reconhecimento de que histórias nascidas na periferia, feitas com poucos recursos e muita urgência, também têm potência estética e política. É um gesto simbólico que amplia a visibilidade do filme, mas, principalmente, das pessoas e das práticas de cuidado que ele carrega”, afirmou.
Na avaliação dos realizadores, o reconhecimento do júri está ligado à forma como o filme se constrói a partir do mínimo: gestos simples, trocas reais e uma ética da escuta e da proximidade. Sem encenação tradicional e julgamento moral, “Para os Guardados” mistura cinema, prática social e arte contemporânea, explorando o som, a ausência e os espaços fechados como elementos narrativos centrais.
Cinema autoral
O vínculo com Contagem é estrutural e o Nacional não aparece apenas como cenário, mas como matéria viva da obra. As experiências vivenciadas no bairro moldam os corpos, os afetos e as estratégias de sobrevivência que atravessam o filme.
“Esse reconhecimento fortalece nossa permanência no cinema independente e reafirma que é possível seguir criando a partir de nossas próprias condições e territórios. Não muda nossa forma de trabalhar, mas amplia as possibilidades de circulação do filme e de continuidade dos próximos projetos. Também cria uma responsabilidade maior com as pessoas que atravessam a obra, já que o filme segue como um espaço de visibilidade para histórias que costumam ser silenciadas”, destacou Rafael Rocha.
Os diretores defendem que é plenamente possível produzir cinema autoral fora dos grandes centros. Segundo eles, Contagem oferece histórias urgentes, vínculos comunitários fortes e uma cena cultural viva. A dupla de diretores deixou um recado para quem deseja atuar no audiovisual: “Começar com o que se tem, com as pessoas próximas e com as histórias do próprio cotidiano. Não esperar pelas condições ideais, criar em coletivo, circular por festivais e acreditar que o território onde se vive é uma fonte legítima de imaginação, invenção e potência artística”.
Para saber mais sobre a produção, acesse o Instagram da @para.os.guardados.
Mostra Aurora
Criada em 2008, a mostra consolidou-se ao longo dos anos como a principal vitrine de revelação de novos autores do cinema brasileiro. A cada edição, a seção reúne seis longas-metragens inéditos, avaliados e premiados pelo júri jovem, destacando obras que apostam na ousadia formal, na experimentação estética e na busca por novas linguagens. Atenta à diversidade territorial do país, a mostra valoriza produções vindas de diferentes regiões do Brasil. Em 2026, concorreram na mesma categoria com o filme “Para os Guardados”, além de produções do Rio de Janeiro, do Amazonas, da Bahia, do Distrito Federal e de Goiás, reafirmando o caráter plural e descentralizado do evento.

