Caem casos graves de doenças respiratórias em bebês após vacinação de gestantes

Caem casos graves de doenças respiratórias em bebês após vacinação de gestantes

Imunização contra vírus associado à bronquiolite e à pneumonia durante a gravidez possibilita a transferência de anticorpos maternos para o feto, conclui estudo da Escola de Enfermagem

O vírus sincicial respiratório (VSR) é um dos principais agentes causadores de infecções respiratórias em crianças menores de dois anos. A infecção está associada, principalmente, a casos de bronquiolite e pneumonia e constitui importante causa de hospitalização entre bebês, podendo evoluir para quadros graves e representar um relevante problema de saúde pública.

Estudo realizado pelo Observatório de Pesquisas e Estudos em Vacinação (OPESV), da Escola de Enfermagem da UFMG, em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), revelou que, após a introdução da vacinação materna contra o VSR no Programa Nacional de Imunizações (PNI), em 2025, houve redução expressiva da incidência de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) associada ao vírus entre crianças menores de dois anos.

De janeiro a julho de 2026, a incidência foi menor em todos os meses analisados, em comparação com o mesmo período de 2025. A pesquisa analisou o comportamento da SRAG associada ao VSR antes e após a introdução da vacinação materna, considerando o período de 2019 a julho de 2026. Também foram avaliadas a incidência e os óbitos entre crianças menores de dois anos, a cobertura vacinal de gestantes e a distribuição dos indicadores em diferentes níveis territoriais.

Em Minas Gerais, o estudo identificou redução de 58% nos casos entre crianças menores de um ano e de 59,7% entre menores de dois anos. No Brasil, a mediana da taxa de incidência passou de 82,9 para 44,1 casos por 100 mil habitantes, redução de 39,2%. No Sudeste, a queda foi de 56,3%. Os dados foram extraídos das notificações de SRAG por VSR registradas no Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe) e do painel de Cobertura Vacinal de Gestantes por Local de Residência, disponibilizado pelo Departamento de Monitoramento, Avaliação e Disseminação de Informações Estratégicas em Saúde (Demas), do Ministério da Saúde.

Padrão sazonal de incidência
A professora da Escola de Enfermagem da UFMG e coordenadora do estudo, Fernanda Penido Matozinhos, explica que a vacinação materna contra o VSR foi incorporada ao PNI em 2025 como estratégia de proteção dos bebês, especialmente nos primeiros meses de vida. “A imunização durante a gestação possibilita a transferência de anticorpos maternos para o feto, contribuindo para a proteção da criança no período de maior vulnerabilidade às formas graves da infecção”, diz. Segundo a pesquisadora, o estudo identificou um padrão sazonal da incidência de SRAG por VSR entre menores de um ano, com elevação das taxas principalmente no primeiro semestre de cada ano.

“Em 2025, antes da introdução da vacinação materna, foram observados picos expressivos de incidência em Minas Gerais e em todas as macrorregiões analisadas, com maior magnitude na região Central do estado. Após a implementação da vacina no último trimestre de 2025, em 2026, apesar de um novo aumento sazonal, os picos de incidência foram visualmente menores que os registrados em 2025 na maioria das regiões, concomitantemente a elevados níveis de cobertura vacinal. Esse padrão foi observado em Minas Gerais e, de forma geral, nas macrorregiões do estado: Central, Leste-Sudeste, Nordeste-Leste, Norte, Oeste-Triângulo e Sul”, enfatizou.

Entre janeiro e julho de 2026, em Minas Gerais, as maiores quedas foram registradas nas regiões Leste-Sudeste (77,3%) e Nordeste-Leste (69,0%), seguidas pelas regiões Central (58,3%), Norte (45,5%) e Sul (37,7%). No Oeste-Triângulo, foi observada a menor redução, de 17,1%, e houve aumento da incidência em alguns meses de 2026. “Diferenças dessa magnitude podem refletir desigualdades na cobertura e na oportunidade da vacinação, no acesso aos serviços de saúde, na distribuição dos nascimentos, na circulação viral ou na capacidade de detecção e notificação dos casos. Essas diferenças também podem estar relacionadas a características epidemiológicas e assistenciais próprias de cada território, sendo importante considerar tais particularidades na interpretação dos resultados”, explicou Fernanda Penido.

A análise das macrorregiões de saúde de Minas Gerais também evidenciou diferenças na distribuição da incidência, reforçando a necessidade de considerar as desigualdades territoriais no acompanhamento da vacinação e da ocorrência de SRAG associada ao VSR.

Menos mortes
A taxa de óbitos apresentou comportamento semelhante, com picos mais elevados em 2025 e redução da magnitude em 2026. “Essa diminuição foi particularmente evidente em Minas Gerais, onde os valores de mortalidade em 2026 permaneceram substancialmente abaixo do pico observado em 2025. O mesmo padrão, embora menos acentuado, foi observado no Sudeste e no Brasil como um todo”, destacou a pesquisadora. Fernanda Penido ressalta, ainda, que os resultados configuram um cenário epidemiológico favorável após a introdução da vacinação materna contra o VSR e contribuem para o monitoramento inicial da estratégia no Sistema Único de Saúde (SUS).

A enfermeira e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da UFMG Bruna Nicole Soares dos Santos, gestante de 35 semanas, contou que já se vacinou contra o VSR. “Como gestante, considero a vacinação uma forma importante de proteger a minha bebê. Já me vacinei porque sei que, nos primeiros meses de vida, o sistema imunológico do bebê ainda está em desenvolvimento. As vacinas salvam vidas, e proteger nossos bebês começa ainda na gestação.”

 

 

Por Rosânia Felipe | Assessoria de Comunicação da Escola de Enfermagem / Legenda da foto: Vacinação contra o vírus sincicial teve início em 2025Foto: Escola de Enfermagem | UFMG